quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Metodologia de Investigação Científica em Psicologia

La verdad es lo que esy sigue siendo verdadaunque se piense al revés.
António Machado

A ciência consiste em agrupar factos para que leis gerais ou conclusões possam ser tiradas deles." - Charles Darwin

Unidade I- CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO E PRÁTICA DE PESQUISA EM PSICOLOGIA
1.1 O Estatuto da teoria: síntese da verdade ou sistematização da dúvida?
Antes de abordarmos o estatuto da teoria, achamos necessário falarmos do conhecimento. O conhecimento é um aspecto que desde os tempos remotos, constituiu preocupação de vários pensadores desde a antiguidade grega até aos dias de hoje. É, por isso que existe um domínio que se preocupa com o conhecimento que é a epistemologia, disciplina que vocês estudaram no ano passado. Falando mais concretamente e pondo de lado as preocupações filosóficas, podemos dizer que o conhecimento pode ser definido em função de três aspectos:
a) Crença e Verdade
O conhecimento requer simultaneamente a crença e a verdade. Quanto a crença, existem casos em que as pessoas supõem, por vezes, que sabem coisas que mais tarde se revelam falsas. Podemos, como exemplo, citar o vírus do Marburg que surgiu no Uíge. Existem informações veiculadas pelos meios de comunicação social de Angola que, assim que o vírus de febre hemorrágica surgiu, as pessoas diziam que era uma causa mística, derivada do feitiço. Essas pessoas tinham a crença de que sabiam da causa das febres hemorrágicas, mas só mais tarde o centro de controlo de doenças de Atlanta se referiu que a febre hemorrágica era devida o vírus de Marburg, já descoberto há anos pelos alemães. O que se passou aqui não é que as pessoas não tinham saber; mas eles pensavam que sabiam uma coisa que, na verdade, era falsa.
Quanto à verdade, é de referir que o conhecimento tem simultaneamente um lado objectivo e subjectivo. Um facto é objectivo se não depende da mente das pessoas; e,por outro lado, um facto é subjectivo se depende da mente das pessoas. Se a pessoa acredita ou não que a malária é causa por um parasita (plamodio) transmitido pela picada do mosquito Anofeles é uma questão subjectiva; mas que a picada do mosquito Anofeles produz esse efeito é uma questão objectivo que não depende do pensamento dessa pessoa e esta é a verdade.
b) Dados de apoio
O conhecimento não requer apenas Crença e Verdade, mas também requer dados de apoio ou uma justificação racional. Vamos supor que uma mãe, de nome Susana, acredita que as doenças são derivadas do mau-olhado ou de uma praga. Se ela discute com a vizinha e esta lhe diz que a sua filha vai adoecer de paludismo e se, na verdade, a criança vier adoecer, podemos dizer que ela terá um crença verdadeira (o paludismo da sua filha veio através da praga que foi rogada pela vizinha), mas não terá conhecimento, porque não tem dados de apoio ou informações de apoio que, racionalmente lhe permitirão deduzir a verdade.
Depois de termos visto o que é o conhecimento e os elementos que o sustentam (crença, verdade e dados de apoio) vamos falar do estatuto da teoria:
1.1 Síntese da verdade ou sistematização dúvida?
O que é a verdade?
A problemática da verdade é algo que sempre preocupou os grandes filósofos e pensadores tanto antigos como actuais. Sem querer entrarmos nesta polémica vamos apenas referir-nos a definição actualmente mais aceite da verdade. Assim, a verdade pode ser encarada como um facto, que só é real depois de confirmado ou refutado pelo uso da razão (nosso pensamento); a verdade implica, por sua vez, a existência de juízos a priori e juízos a posteriori: juízos a priori são conhecidos pela mente antes da experiência (sob a forma de hipóteses). Ex: em terapia familiar, é provável que os filhos de uma relação poligâmica sejam mais susceptíveis a delinquência e ao crime que os filhos de uma relação monogâmica. Os juízos a posteriori dependem do resultado final de uma experiência científica, que deve ser realizada inúmeras vezes para que exista a comprovação de que um fenómeno sobre determinadas condições só produz um único tipo de resultado que pode ser verdadeiro ou falso. A hipótese atrás levantada pode ser verdadeira ou falsa. Não existem mecanismos científicos totalmente eficazes de se prever acontecimentos futuros, dado ao fato da realidade poder ser alterada por elementos não possíveis de serem previstos pelo conhecimento humano.
O que é dúvida?
Dúvida (derivado do latim dubitare) é um estado mental ou uma emoção entre acreditar e desacreditar. Ela é a incerteza ou desconfiança de um fato, uma acção, de uma asserção ou de uma decisão.
O que é a teoria?
O termo teoria tem sido compreendido em duas acepções: a “forte” e a “fraca”. Na acepção “forte”, uma teoria é um princípio ou conjunto de princípios para explicar, organizar, unificar, e/ou compreender o sentido de um conjunto de fenómenos. Na acepção “fraca”, uma teoria é uma crença ou especulação. Como exemplo, podemos citar a teoria do desenvolvimento psicológico da criança de Jean Piaget que é uma acepção forte pois explica o desenvolvimento psicológico da criança e a acepção fraca como, por exemplo, a crença de que o mau-olhado ou uma praga pode explicar a doença da malária. A primeira é uma teoria científica e a segunda não-científica.Poderíamos dividir as teorias em científicas e não-científicas.
Uma teoria científica é empírica, falseável e possui poder preditivo, por exemplo, pode-se prever que os níveis de infecção do HIV aumentarão caso os jovens não sejam fieis aos parceiros, tenham vários parceiros ou façam sexo sem protecção. As teorias científicas tentam entender o mundo da observação e da experiência. Elas tentam explicar como o mundo natural funciona. Uma teoria empírica não-científica tenta explicar um certo conjunto de fenómenos empíricos, mas não é falseável e não tem nenhum poder preditivo, por exemplo, não se pode predizer que só apanham paludismo as pessoas a quem alguém lhe rogou uma praga ou lhe deu um mau-olhado.
A história da ciência, entretanto, claramente mostra que teorias científicas não permanecem eternamente inalteradas. A história da ciência não é a história de uma verdade absoluta sendo construída sobre outras verdades absolutas. Em lugar disso ela é, entre outras coisas, a história da teorização, teste, discussão, refinamento, rejeição, substituição, mais teorização, mais teste, etc. Ela é a história de teorias funcionando bem por algum tempo, a ocorrência de anomalias (ou seja, descoberta de novos fatos que não se encaixam nas teorias estabelecidas), e novas teorias sendo propostas e acabando por substituir as antigas, parcialmente ou completamente. Depois dessa discussão estamos em condições de responder que o estatuto da teoria não é a síntese da verdade, pois a verdade é sempre relativa e se aproxima mais da sistematização da dúvida onde o homem vai sempre procurando a verdade, através das dúvidas que lhe passam pela cabeça mas que nunca alcançará a verdade absoluta.

1.2 O lugar da experiência sensível na construção do conhecimento
Como é que se constrói o conhecimento?
Existem várias teorias que procuram explicar como se constrói o conhecimento na sua relação com a experiência sensível. A teoria mais conhecida sobre esta questão é de John Locke. Para este pensador só podemos conhecer aquilo que inicialmente é percebido e registado pelos sentidos. São estes que fornecem o material para a razão, ou seja, em primeiro lugar, a partir das sensações – uma experiência externa – os sentidos percebem os objectos sensíveis e imprimem na mente as imagens desses objectos. Em segundo lugar, as operações da própria mente sobre as ideias que já possui, pela reflexão, constitui-se numa experiência interna. Num exemplo clássico de Locke, apresentado em forma de analogia à mente humana, esta seria como uma folha de papel em branco, a ser preenchida com as ideias que têm origem em duas. Desta forma, Locke classifica as ideias em simples e complexas. As ideias simples são as ideias das sensações, as ideias da reflexão ou as ideias da sensação e da reflexão. Já as ideias complexas são provenientes das somas, das comparações, das relações, e para estas implica um trabalho activo do espírito humano, no qual é possível construir novas ideias. O conhecimento começa com as experiências sensíveis que atingem os sentidos: a matéria do conhecimento são as impressões que o sujeito recebe de maneira desorganizada e desordenada e estas são organizadas pela forma a priori do entendimento. Desta forma, para conhecer as coisas precisamos ter delas uma experiência, mas a experiência não será nada se não for organizada por nosso entendimento.



1.3 Fundamentos epistemológicos da psicologia: a filosofia e a ciência
A psicologia como ciência nasce em meados do século XIX tendo na figura de Wundt o seu fundador. Foi a partir daí que a psicologia se desmembrou da filosofia e ganhou um estatuto independente.
A Psicologia passou, assim, por uma longa história até o momento em que se torna uma ciência plena. Este percurso possui várias influências que colaboraram para que este ciência fosse o que é hoje. A psicologia, mesmo nos dias de hoje, continua a ter a filosofia como um dos seus fundamentos epistemológicos, pelas seguintes razões: em primeiro lugar, a filosófica estuda, para além de outros aspectos, o modo de ser da mente, a natureza dos estados mentais e sobre a consciência. Em segundo lugar, estuda aspectos epistemológicos sobre o modo como a mente conhece a si mesma assim como a relação entre os estados mentais e os estados de coisa que os mesmos representam (intencionalidade), incluindo estudos sobre a percepção e outros modos de aquisição de informação, como a memória, o testemunho (fundamental para a aquisição da linguagem) e a introspecção. Envolve ainda a investigação de questões éticas como a questão da liberdade, normalmente considerada impossível caso a mente siga, como tudo o mais, leis naturais.
É desta maneira que a filosofia constitui o fundamento epistemológico da Psicologia. A psicologia, embora seja uma ciência, continua a ter esta como seu fundamento epistemológico, sobretudo na relação com outras ciências. Assim, a psicologia tem relação com a psiquiatria – uma ciência irmã-, a antropologia, a ciência humana preocupada com o estudo da cultura, a sociologia, que estuda os grupos e as sociedades que escapam ao indivíduo isolado, a biologia, que explica que é inato do que é aprendido pela cultura. Com a estatística descritiva e inferencial para aprimorar as pesquisas com seres humanos, a fisiologia, um psicólogo poderá, por exemplo, saber que o seu paciente está sem apetite sexual porque está tomando antidepressivos. Com a política, a psicologia saberá sobre a natureza do poder e da arte de mentir, etc.




1.4 Os problemas especiais na investigação do objecto de estudo da psicologia comportamento ou processos mentais?
Os problemas especiais na investigação do objecto de estudo da psicologia derivam, certamente, das várias correntes que serviram de base para a criação da psicologia moderna. Assim, apenas para sistematizar temos aquelas que deram ênfase ao estudo do comportamento, como Behaviorismo que considera o objectivo da psicologia como o estudo do comportamento de um organismo em interacção com o ambiente. Recordemo-nos que os fundadores desta corrente foi que teve como discípulos mais representativos Hull e B.F. Skinner. Os psicólogos behavioristas estudavam os eventos ambientais (estímulos), o comportamento observável (respostas) e como a experiência influenciava o comportamento, as aptidões e os traços das pessoas mais do que a hereditariedade. Outra corrente de pensamento, como a psicologia cognitiva já não se preocupou tanto com o com o comportamento. De modo que ela estuda a cognição, os processos mentais que estão por detrás do comportamento. É uma das disciplinas da ciência cognitiva Esta área de investigação cobre diversos domínios, examinando questões sobre a memória, atenção, percepção, representação de conhecimento, raciocínio, criatividade e resolução de problemas. Assim, como se pode a investigação em psicologia é feita consoante o objecto de estudo definido por cada corrente de pensamento.
1.5 O uso dos métodos em Psicologia em função dos objectivos da pesquisa
Os métodos científicos da psicologia podem ser divididos em três grupos: experimentais, diferenciais e clínicos. Os métodos experimentais, oriundos das ciências físicas, têm por princípio a variação de um factor, o factor causal também chamado variável independente, mantendo constantes todas as outras fontes de influência. Observar-se-ão, assim, as modificações produzidas na variável dependente. A tarefa fundamental do psicólogo será, de um lado, encontrar medidas precisas quanto às variações das variáveis independente e dependente, e, de outro lado, controlar todas as outras variáveis para que seu efeito possa ser considerado como constante. Em certos casos, como no estudo do desenvolvimento dos factores da inteligência, da personalidade etc., o psicólogo não pode variar directamente o factor que deseja estudar. Recorre então ao método diferencial. As diferenças individuais constituirão a variável propriamente dita; as outras condições, e mesmo as provas às quais os indivíduos serão submetidos, ficam constantes. Enquanto os dois métodos citados permitem estabelecer leis gerais, o método clínico se propõe compreender o indivíduo em sua situação particular ou pretende aplicar as diversas leis gerais a casos individuais. Seu uso é indispensável no diagnóstico da personalidade. Para o conhecimento preciso de determinados fenómenos psicológicos, muitas vezes os três métodos devem ser empregados conjuntamente.

1.6 A pesquisa psicológica e a definição e classificação geral das variáveis: independente, dependente, interveniente ou estranha
O que é uma variável?
As variáveis são, como a própria palavra o diz, qualidades ou características de um fenómeno ou processo susceptíveis de serem alteradas ou associadas por uma ou outra variável.
Que variáveis são geralmente tidas em conta na investigação?
1.6.1 A Variável dependente

“Consideram-se como variáveis dependentes aquelas que dependem dos procedimentos da investigação, conotando-se directamente com as respostas que se procuram. São dados que se obtêm e que variam à medida que o investigador modifica as condições de investigação Uma variável dependente é aquela que procuramos como resposta para a pergunta. Toda a investigação tem por objectivo chegar à variável dependente, ou seja, ao resultado obtido com os procedimentos da investigação ” (Sousa, A. B., 2005). Como exemplo pode citar-se um estudo em que se pretende saber o nível de prevalência do HIV em estudantes da Unipiaget. Neste caso a variável independente pode ser a saúde dos estudantes e a dependente o nível de infecção face ao HIV.
1.6.2 Variável independente
Variável Independente: “As variáveis independentes serão aquelas que são independentes dos procedimentos da investigação que não dependem da investigação, constituindo no entanto factores determinantes que a vão influenciar, recorrendo o investigador à sua manipulação para observar os efeitos produzidos nas variáveis dependentes” (Sousa, A. B., 2005)
1.6.3 Variáveis Intervenientes ou Intermediárias
“Para além das variáveis dependentes e independentes, aparecem muitas vezes, de forma patente ou oculta, alguns tipos de variáveis que exercem diferentes influências no decurso da investigação e que convém serem identificadas e controladas” (Sousa, A. B., 2005). Uma variável interveniente podia ser, segundo o exemplo que estamos dando, problemas nos reagentes para detecção do HIV.

1.6.3 Variável estranha
Compreende uma gama de variáveis que podem afectar uma determinada relação, mas a maioria delas pode ser ignorada. Outras podem ser importantes, mas seu impacto ocorre de forma aleatória, tendo pouco efeito. Um exemplo pode ser a inexperiência da enfermeira que faz o teste.
a
La verdad es lo que esy sigue siendo verdadaunque se piense al revés.
António Machado

A ciência consiste em agrupar factos para que leis gerais ou conclusões possam ser tiradas deles." - Charles Darwin

Unidade I- CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO E PRÁTICA DE PESQUISA EM PSICOLOGIA
1.1 O Estatuto da teoria: síntese da verdade ou sistematização da dúvida?
Antes de abordarmos o estatuto da teoria, achamos necessário falarmos do conhecimento. O conhecimento é um aspecto que desde os tempos remotos, constituiu preocupação de vários pensadores desde a antiguidade grega até aos dias de hoje. É, por isso que existe um domínio que se preocupa com o conhecimento que é a epistemologia, disciplina que vocês estudaram no ano passado. Falando mais concretamente e pondo de lado as preocupações filosóficas, podemos dizer que o conhecimento pode ser definido em função de três aspectos:
a) Crença e Verdade
O conhecimento requer simultaneamente a crença e a verdade. Quanto a crença, existem casos em que as pessoas supõem, por vezes, que sabem coisas que mais tarde se revelam falsas. Podemos, como exemplo, citar o vírus do Marburg que surgiu no Uíge. Existem informações veiculadas pelos meios de comunicação social de Angola que, assim que o vírus de febre hemorrágica surgiu, as pessoas diziam que era uma causa mística, derivada do feitiço. Essas pessoas tinham a crença de que sabiam da causa das febres hemorrágicas, mas só mais tarde o centro de controlo de doenças de Atlanta se referiu que a febre hemorrágica era devida o vírus de Marburg, já descoberto há anos pelos alemães. O que se passou aqui não é que as pessoas não tinham saber; mas eles pensavam que sabiam uma coisa que, na verdade, era falsa.
Quanto à verdade, é de referir que o conhecimento tem simultaneamente um lado objectivo e subjectivo. Um facto é objectivo se não depende da mente das pessoas; e,por outro lado, um facto é subjectivo se depende da mente das pessoas. Se a pessoa acredita ou não que a malária é causa por um parasita (plamodio) transmitido pela picada do mosquito Anofeles é uma questão subjectiva; mas que a picada do mosquito Anofeles produz esse efeito é uma questão objectivo que não depende do pensamento dessa pessoa e esta é a verdade.
b) Dados de apoio
O conhecimento não requer apenas Crença e Verdade, mas também requer dados de apoio ou uma justificação racional. Vamos supor que uma mãe, de nome Susana, acredita que as doenças são derivadas do mau-olhado ou de uma praga. Se ela discute com a vizinha e esta lhe diz que a sua filha vai adoecer de paludismo e se, na verdade, a criança vier adoecer, podemos dizer que ela terá um crença verdadeira (o paludismo da sua filha veio através da praga que foi rogada pela vizinha), mas não terá conhecimento, porque não tem dados de apoio ou informações de apoio que, racionalmente lhe permitirão deduzir a verdade.
Depois de termos visto o que é o conhecimento e os elementos que o sustentam (crença, verdade e dados de apoio) vamos falar do estatuto da teoria:
1.1 Síntese da verdade ou sistematização dúvida?
O que é a verdade?
A problemática da verdade é algo que sempre preocupou os grandes filósofos e pensadores tanto antigos como actuais. Sem querer entrarmos nesta polémica vamos apenas referir-nos a definição actualmente mais aceite da verdade. Assim, a verdade pode ser encarada como um facto, que só é real depois de confirmado ou refutado pelo uso da razão (nosso pensamento); a verdade implica, por sua vez, a existência de juízos a priori e juízos a posteriori: juízos a priori são conhecidos pela mente antes da experiência (sob a forma de hipóteses). Ex: em terapia familiar, é provável que os filhos de uma relação poligâmica sejam mais susceptíveis a delinquência e ao crime que os filhos de uma relação monogâmica. Os juízos a posteriori dependem do resultado final de uma experiência científica, que deve ser realizada inúmeras vezes para que exista a comprovação de que um fenómeno sobre determinadas condições só produz um único tipo de resultado que pode ser verdadeiro ou falso. A hipótese atrás levantada pode ser verdadeira ou falsa. Não existem mecanismos científicos totalmente eficazes de se prever acontecimentos futuros, dado ao fato da realidade poder ser alterada por elementos não possíveis de serem previstos pelo conhecimento humano.
O que é dúvida?
Dúvida (derivado do latim dubitare) é um estado mental ou uma emoção entre acreditar e desacreditar. Ela é a incerteza ou desconfiança de um fato, uma acção, de uma asserção ou de uma decisão.
O que é a teoria?
O termo teoria tem sido compreendido em duas acepções: a “forte” e a “fraca”. Na acepção “forte”, uma teoria é um princípio ou conjunto de princípios para explicar, organizar, unificar, e/ou compreender o sentido de um conjunto de fenómenos. Na acepção “fraca”, uma teoria é uma crença ou especulação. Como exemplo, podemos citar a teoria do desenvolvimento psicológico da criança de Jean Piaget que é uma acepção forte pois explica o desenvolvimento psicológico da criança e a acepção fraca como, por exemplo, a crença de que o mau-olhado ou uma praga pode explicar a doença da malária. A primeira é uma teoria científica e a segunda não-científica.Poderíamos dividir as teorias em científicas e não-científicas.
Uma teoria científica é empírica, falseável e possui poder preditivo, por exemplo, pode-se prever que os níveis de infecção do HIV aumentarão caso os jovens não sejam fieis aos parceiros, tenham vários parceiros ou façam sexo sem protecção. As teorias científicas tentam entender o mundo da observação e da experiência. Elas tentam explicar como o mundo natural funciona. Uma teoria empírica não-científica tenta explicar um certo conjunto de fenómenos empíricos, mas não é falseável e não tem nenhum poder preditivo, por exemplo, não se pode predizer que só apanham paludismo as pessoas a quem alguém lhe rogou uma praga ou lhe deu um mau-olhado.
A história da ciência, entretanto, claramente mostra que teorias científicas não permanecem eternamente inalteradas. A história da ciência não é a história de uma verdade absoluta sendo construída sobre outras verdades absolutas. Em lugar disso ela é, entre outras coisas, a história da teorização, teste, discussão, refinamento, rejeição, substituição, mais teorização, mais teste, etc. Ela é a história de teorias funcionando bem por algum tempo, a ocorrência de anomalias (ou seja, descoberta de novos fatos que não se encaixam nas teorias estabelecidas), e novas teorias sendo propostas e acabando por substituir as antigas, parcialmente ou completamente. Depois dessa discussão estamos em condições de responder que o estatuto da teoria não é a síntese da verdade, pois a verdade é sempre relativa e se aproxima mais da sistematização da dúvida onde o homem vai sempre procurando a verdade, através das dúvidas que lhe passam pela cabeça mas que nunca alcançará a verdade absoluta.

1.2 O lugar da experiência sensível na construção do conhecimento
Como é que se constrói o conhecimento?
Existem várias teorias que procuram explicar como se constrói o conhecimento na sua relação com a experiência sensível. A teoria mais conhecida sobre esta questão é de John Locke. Para este pensador só podemos conhecer aquilo que inicialmente é percebido e registado pelos sentidos. São estes que fornecem o material para a razão, ou seja, em primeiro lugar, a partir das sensações – uma experiência externa – os sentidos percebem os objectos sensíveis e imprimem na mente as imagens desses objectos. Em segundo lugar, as operações da própria mente sobre as ideias que já possui, pela reflexão, constitui-se numa experiência interna. Num exemplo clássico de Locke, apresentado em forma de analogia à mente humana, esta seria como uma folha de papel em branco, a ser preenchida com as ideias que têm origem em duas. Desta forma, Locke classifica as ideias em simples e complexas. As ideias simples são as ideias das sensações, as ideias da reflexão ou as ideias da sensação e da reflexão. Já as ideias complexas são provenientes das somas, das comparações, das relações, e para estas implica um trabalho activo do espírito humano, no qual é possível construir novas ideias. O conhecimento começa com as experiências sensíveis que atingem os sentidos: a matéria do conhecimento são as impressões que o sujeito recebe de maneira desorganizada e desordenada e estas são organizadas pela forma a priori do entendimento. Desta forma, para conhecer as coisas precisamos ter delas uma experiência, mas a experiência não será nada se não for organizada por nosso entendimento.



1.3 Fundamentos epistemológicos da psicologia: a filosofia e a ciência
A psicologia como ciência nasce em meados do século XIX tendo na figura de Wundt o seu fundador. Foi a partir daí que a psicologia se desmembrou da filosofia e ganhou um estatuto independente.
A Psicologia passou, assim, por uma longa história até o momento em que se torna uma ciência plena. Este percurso possui várias influências que colaboraram para que este ciência fosse o que é hoje. A psicologia, mesmo nos dias de hoje, continua a ter a filosofia como um dos seus fundamentos epistemológicos, pelas seguintes razões: em primeiro lugar, a filosófica estuda, para além de outros aspectos, o modo de ser da mente, a natureza dos estados mentais e sobre a consciência. Em segundo lugar, estuda aspectos epistemológicos sobre o modo como a mente conhece a si mesma assim como a relação entre os estados mentais e os estados de coisa que os mesmos representam (intencionalidade), incluindo estudos sobre a percepção e outros modos de aquisição de informação, como a memória, o testemunho (fundamental para a aquisição da linguagem) e a introspecção. Envolve ainda a investigação de questões éticas como a questão da liberdade, normalmente considerada impossível caso a mente siga, como tudo o mais, leis naturais.
É desta maneira que a filosofia constitui o fundamento epistemológico da Psicologia. A psicologia, embora seja uma ciência, continua a ter esta como seu fundamento epistemológico, sobretudo na relação com outras ciências. Assim, a psicologia tem relação com a psiquiatria – uma ciência irmã-, a antropologia, a ciência humana preocupada com o estudo da cultura, a sociologia, que estuda os grupos e as sociedades que escapam ao indivíduo isolado, a biologia, que explica que é inato do que é aprendido pela cultura. Com a estatística descritiva e inferencial para aprimorar as pesquisas com seres humanos, a fisiologia, um psicólogo poderá, por exemplo, saber que o seu paciente está sem apetite sexual porque está tomando antidepressivos. Com a política, a psicologia saberá sobre a natureza do poder e da arte de mentir, etc.




1.4 Os problemas especiais na investigação do objecto de estudo da psicologia comportamento ou processos mentais?
Os problemas especiais na investigação do objecto de estudo da psicologia derivam, certamente, das várias correntes que serviram de base para a criação da psicologia moderna. Assim, apenas para sistematizar temos aquelas que deram ênfase ao estudo do comportamento, como Behaviorismo que considera o objectivo da psicologia como o estudo do comportamento de um organismo em interacção com o ambiente. Recordemo-nos que os fundadores desta corrente foi que teve como discípulos mais representativos Hull e B.F. Skinner. Os psicólogos behavioristas estudavam os eventos ambientais (estímulos), o comportamento observável (respostas) e como a experiência influenciava o comportamento, as aptidões e os traços das pessoas mais do que a hereditariedade. Outra corrente de pensamento, como a psicologia cognitiva já não se preocupou tanto com o com o comportamento. De modo que ela estuda a cognição, os processos mentais que estão por detrás do comportamento. É uma das disciplinas da ciência cognitiva Esta área de investigação cobre diversos domínios, examinando questões sobre a memória, atenção, percepção, representação de conhecimento, raciocínio, criatividade e resolução de problemas. Assim, como se pode a investigação em psicologia é feita consoante o objecto de estudo definido por cada corrente de pensamento.
1.5 O uso dos métodos em Psicologia em função dos objectivos da pesquisa
Os métodos científicos da psicologia podem ser divididos em três grupos: experimentais, diferenciais e clínicos. Os métodos experimentais, oriundos das ciências físicas, têm por princípio a variação de um factor, o factor causal também chamado variável independente, mantendo constantes todas as outras fontes de influência. Observar-se-ão, assim, as modificações produzidas na variável dependente. A tarefa fundamental do psicólogo será, de um lado, encontrar medidas precisas quanto às variações das variáveis independente e dependente, e, de outro lado, controlar todas as outras variáveis para que seu efeito possa ser considerado como constante. Em certos casos, como no estudo do desenvolvimento dos factores da inteligência, da personalidade etc., o psicólogo não pode variar directamente o factor que deseja estudar. Recorre então ao método diferencial. As diferenças individuais constituirão a variável propriamente dita; as outras condições, e mesmo as provas às quais os indivíduos serão submetidos, ficam constantes. Enquanto os dois métodos citados permitem estabelecer leis gerais, o método clínico se propõe compreender o indivíduo em sua situação particular ou pretende aplicar as diversas leis gerais a casos individuais. Seu uso é indispensável no diagnóstico da personalidade. Para o conhecimento preciso de determinados fenómenos psicológicos, muitas vezes os três métodos devem ser empregados conjuntamente.

1.6 A pesquisa psicológica e a definição e classificação geral das variáveis: independente, dependente, interveniente ou estranha
O que é uma variável?
As variáveis são, como a própria palavra o diz, qualidades ou características de um fenómeno ou processo susceptíveis de serem alteradas ou associadas por uma ou outra variável.
Que variáveis são geralmente tidas em conta na investigação?
1.6.1 A Variável dependente

“Consideram-se como variáveis dependentes aquelas que dependem dos procedimentos da investigação, conotando-se directamente com as respostas que se procuram. São dados que se obtêm e que variam à medida que o investigador modifica as condições de investigação Uma variável dependente é aquela que procuramos como resposta para a pergunta. Toda a investigação tem por objectivo chegar à variável dependente, ou seja, ao resultado obtido com os procedimentos da investigação ” (Sousa, A. B., 2005). Como exemplo pode citar-se um estudo em que se pretende saber o nível de prevalência do HIV em estudantes da Unipiaget. Neste caso a variável independente pode ser a saúde dos estudantes e a dependente o nível de infecção face ao HIV.
1.6.2 Variável independente
Variável Independente: “As variáveis independentes serão aquelas que são independentes dos procedimentos da investigação que não dependem da investigação, constituindo no entanto factores determinantes que a vão influenciar, recorrendo o investigador à sua manipulação para observar os efeitos produzidos nas variáveis dependentes” (Sousa, A. B., 2005)
1.6.3 Variáveis Intervenientes ou Intermediárias
“Para além das variáveis dependentes e independentes, aparecem muitas vezes, de forma patente ou oculta, alguns tipos de variáveis que exercem diferentes influências no decurso da investigação e que convém serem identificadas e controladas” (Sousa, A. B., 2005). Uma variável interveniente podia ser, segundo o exemplo que estamos dando, problemas nos reagentes para detecção do HIV.

1.6.3 Variável estranha
Compreende uma gama de variáveis que podem afectar uma determinada relação, mas a maioria delas pode ser ignorada. Outras podem ser importantes, mas seu impacto ocorre de forma aleatória, tendo pouco efeito. Um exemplo pode ser a inexperiência da enfermeira que faz o teste.

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